A Luta

Com poucos psiquiatras, leitos e tratamentos, não há saúde mental no SUS

10/02/2016 13:38

Pacientes no chão do superlotado plantão do PACS
Pacientes no chão do superlotado plantão do PACS
O caos nas políticas públicas para a saúde mental, com falta de leitos específicos e consultas com especialistas, pode ser calculado pela constante superlotação nas emergências psiquiátricas e suas salas de prontuários. Centenas de caixas se acumulam sem passar por digitalização, e algumas pastas de pacientes contêm outras centenas de papéis, mostrando as idas e vindas ao local. Uma prova da falta de resolutividade no tratamento psiquiátrico.
Prontuários se acumulam sem digitalização ou resolutividade
Prontuários se acumulam sem digitalização ou resolutividade
Em Porto Alegre, a psiquiatria já esteve entre as especialidades com maior fila de espera na saúde pública. Com apenas 35 médicos para todas as subespecialidades (adulto, pediátrica, dependência química), há um ano o jornal Zero Hora denunciou que pacientes estavam sendo encaminhados para médicos particulares nos postos da cidade. Na época, segundo a Secretaria Municipal de Saúde, a fila de espera pelo especialista somava 4 mil pessoas. O Sindicato Médico buscou repetidas vezes a informação atual com a pasta, mas não obteve retorno.

Prevenir na atenção primária

“Infelizmente as pessoas ficam muito tempo esperando pelas consultas. Poderia se resolver um grande número de casos na atenção primária, com prevenção nos primeiros atendimentos. Mas deveria haver maior número de profissionais. Tratar saúde mental é relativamente simples, basta a presença de psiquiatras, ou mesmo a supervisão junto a outros médicos, na atenção básica, encaminhando os pacientes a tratamento em continuidade, em princípio, ambulatorial. Só casos mais graves, em estado psicótico, deveriam ser internados em clínicas psiquiátricas”, avalia o psiquiatra Bruno Costa, diretor do SIMERS.
Bruno Costa
Bruno Costa
Ainda assim, a principal dificuldade se dá após a primeira consulta: dar a continuidade adequada ao tratamento. Se for constatada gravidade, o paciente pode ser encaminhado a uma equipe de saúde mental, disponível em oito postos da capital, para atendimento individual ou em grupo, ou para um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). Mas esses tratamentos ocorrem por tempo determinado, depois o paciente retorna ao início da fila, num ciclo muitas vezes sem fim, ou vai parar, em crise, nos dois plantões psiquiátricos da cidade: Pronto Atendimento Cruzeiro do Sul (PACS) ou Centro de Saúde IAPI. “Não existe continuidade, há um tempo demasiadamente grande entre um consulta e outra e elas não costumam ser com o mesmo médico. O paciente precisa se abrir, muitas vezes sobre temas difíceis, dos quais já tem resistência a falar, com uma pessoa diferente toda a vez. Isso é um fator para o abandono do tratamento. Quando uma doença não tem tratamento, ela se agrava. Na saúde mental, isso tem consequências graves à própria vida do paciente e à vida em sociedade. Podem ser pessoas que vão acabar gerando verdadeiras tragédias e problemas sociais”, alerta Costa. “É preciso que esse paciente tenha acompanhamento, pois ele precisa de assistência maior na fase aguda da doença.”
Roberta Grudtner
Roberta Grudtner
Para a também psiquiatra e diretora do SIMERS Roberta Grudtner, a estrutura atual para a saúde mental não é eficiente. “Os CAPS AD (Álcool e Drogas) sequer exigem psiquiatras. Existe uma resistência em encaminhar o doente para hospital psiquiátrico, e leitos em hospital geral são abertos, não servem para quem está em risco. Os consultórios de rua, que poderiam ser porta de entrada para o sistema de saúde, também não funcionam, pois faltam psiquiatras e sobra preconceito”, pontua.

Flagrantes de superlotação

A principal dificuldade enfrentada nas emergências em saúde mental é a falta de oferta de leitos psiquiátricos na rede pública, o que represa no pronto-atendimento. Embora Porto Alegre conte com um hospital psiquiátrico, o São Pedro, ele recebe prioritariamente pacientes do interior, por ser de gestão estadual. “Não existe uma integração de gestão adequada”, decreta Bruno Costa.
Poltrona vira leito no plantão do IAPI
Poltrona vira leito no plantão do IAPI
Neste ano, apenas em janeiro, o SIMERS já constatou superlotação tanto no Postão da Cruzeiro quanto do IAPI. O presidente do Sindicato, Paulo de Argollo Mendes, anunciou que vai responsabilizar criminalmente o prefeito da capital, José Fortunati, por permitir essa situação enquanto o Hospital Parque Belém está com quase todos seus 250 leitos desocupados, inclusive para a saúde mental. “Constatamos um desrespeito aos direitos humanos, com as pessoas amontoadas por falta de leitos hospitalares para serem encaminhadas. Além disso, verificamos que há problemas com o transporte da Central de Regulação, pois alguns pacientes já conseguiram vagas, mas não conseguem ser transferidos”, disse o presidente do SIMERS após observar pacientes no chão do PACS e deitados em poltronas no IAPI.
Argollo denuncia descaso do município com a saúde mental
Argollo denuncia descaso do município com a saúde mental

Realidade nacional

A falta de uma política eficaz para o tratamento psiquiátrico não é exclusividade de Porto Alegre, nem prejudica apenas a vida do doente. As dificuldades se espalham por todo o Brasil e levam sofrimento a todos ao redor do paciente. Amigos e parentes ficam apreensivos, aguardando uma nova crise para conseguirem receber a atenção do SUS. Alguns casos terminam em tragédia, como a morte do menino indígena de 2 anos, no final de 2015, na rodoviária de Imbituba (SC). O acusado pelo crime é um jovem desajustado de 23 anos, rejeitado pelos pais e obcecado por temas mórbidos, que tentava uma consulta com psiquiatra na rede pública após já ter passado por atendimento em CAPS.
Germano Bonow
Germano Bonow
“Nos últimos anos, foram fechados 90 mil leitos psiquiátricos no País. Hoje, são pouco mais de 30 mil. Enquanto isso, a população cresceu o equivalente a uma Argentina, em 40 milhões. Será que colocamos à disposição da nossa população os vários métodos alternativos necessários – como residência terapêutica e CAPS?”, questiona o diretor do Sindicato Germano Bonow. A resposta é o agravamento do problema, indo na contramão, inclusive, da crescente epidemia de crack. Boa parte dos pacientes que represam nas emergências é de dependentes químicos.
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