A Luta

Não faltam médicos no Brasil, faltam respeito e condições de trabalho

07/03/2016 11:00

Embora um levantamento do governo federal aponte que, para o brasileiro, a falta de médicos é o principal problema do Sistema Único de Saúde, esta sensação não reflete a realidade. O Brasil tem 432.870 médicos registrados, dos quais 73,1% (316.427) atuam no SUS, uma média de um para cada 633 habitantes, dentro do parâmetro de 1/1.000 preconizado pela Organização Mundial de Saúde. Então, por que, na prática, a população tem dificuldades em conseguir consultas? A resposta está na má distribuição dos profissionais e concentração em grandes centros urbanos, acarretadas pela falta de uma carreira de Estado. Diferentemente do que o governo federal alardeou com a implantação do programa Mais Médicos, não existe má vontade da categoria em interiorizar seu trabalho. O que ocorre é uma grande desorganização da gestão da saúde no país. Apesar de não faltar trabalho para os profissionais de medicina, os vínculos empregatícios são confusos e, muitas vezes, os salários são baixos ou atrasam constantemente. O SIMERS acompanha lutas de médicos pelo simples direito de receber em dia em diversas cidades pelo Estado. Esse desrespeito aliado a más condições de trabalho promove uma verdadeira “expulsão de médicos do SUS”, segundo o presidente da entidade, Paulo de Argollo Mendes. Os médicos, após 10 mil horas de formação, precisam se submeter a salários iniciais por volta de R$ 2 mil para rotinas árduas, sem garantias de ascender na carreira. Enquanto isso, os juízes, que contam com carreira de Estado, têm salários iniciais ao redor de R$ 24 mil e perspectivas de conseguir, a médio prazo, atuar na cidade de sua preferência. Não à toa, não faltam juízes e promotores pelos recônditos do país. “A medicina vive uma situação anômala a todas as outras profissões”, diz Argollo, citando os disputados concursos públicos que tanto atraem profissionais de outras categorias.

Falsas soluções

Para solucionar a ausência de profissionais em algumas regiões, foi iniciada pela União a abertura indiscriminada de faculdades de Medicina, sem que haja um controle de qualidade do ensino e da infraestrutura. Muitas dessas escolas sequer contam com um hospital para o treinamento dos alunos. Que tipo de médico estarão formando? Além disso, o simples fato de criar faculdades no interior não garante a permanência de profissionais nessas regiões. “Um plano de carreira com uma remuneração adequada é que fidelizaria o médico no serviço público”, defende a vice-presidente do SIMERS, Maria Rita de Assis Brasil.
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