A Luta

Conheça histórias de médicos que inspiraram o episódio “O dia está só começando”

17/10/2016 15:39

A precariedade das estruturas de saúde pública prejudica o trabalho médico e coloca em risco a vida de pacientes. Na websérie Nascidos para Medicina, obra ficcional que retrata os desafios dos médicos na luta pela prestação da saúde de qualidade no Brasil, Marco chega ao hospital para seu primeiro dia de residência. O primeiro caso já exige muito de sua capacidade: uma mulher esfaqueada precisa de uma punção no coração, mas não há todos os equipamentos necessários para o procedimento. Assista aqui. Falta de equipamentos adequados é apenas um dos problemas que profissionais que atuam na saúde pública têm de enfrentar diariamente para conseguir realizar seu trabalho. Há também relatos de chuva dentro da sala de atendimento, prédios em obras e presença de ratos e baratas. Confira o relato de médicos que vivenciaram situações em que a falta de estrutura adequada afetou seu trabalho:

Médico ficou doente por trabalhar em lugar inadequado

situação precária “Durante o tempo em que trabalhei na UBS Macedônia, foi feita uma reforma no local. Fomos transferidos para um espaço provisório, no antigo PA, até que o serviço fosse concluído. Era um cubículo. Das quatro salas de atendimento, três não tinham janelas nem outro tipo de circulação de ar. Chegavam pacientes com tuberculose e outras doenças contagiosas. Ficávamos com dois corações. Sabíamos que o certo seria paralisar, mas não queríamos deixar as pessoas sem atendimento. Acabamos aceitando as piores condições. Como a saúde pública em geral tem problemas, a gente acaba se acostumando. Com o tempo, as dificuldades se tornam naturais. Mas, naquele período, cada mês tive uma doença diferente. Amigdalite, pneumonia, problemas de coluna. Desliguei-me do serviço antes do fim da reforma, em fevereiro, porque vi que meus problemas de saúde estavam relacionados à falta de estrutura. Não estava mais dando conta e optei por cuidar de mim. Foi ruim. Quando entramos na saúde pública, queremos fazer a diferença. Mas tenho a sensação de que, sempre que alguém quer fazer diferente, o governo faz questão de impedir. O trabalhador não tem voz.” Marcelo Garcia, clínico geral

Alagamentos suspendem atendimentos na USB Tronco

“Atendo na UBS Tronco há 17 anos. Desde então, o local já sofreu com diversos contratempos estruturais, como problemas na rede elétrica e falta d’água frequente, porque a caixa d’água era compartilhada com uma escola nas proximidades. A dificuldade mais recente teve início em fevereiro, e continua ocorrendo: toda vez que chove, a sala de atendimento fica alagada. A água entra por uma viga e chove como se fosse na rua. Certa vez estava realizando um atendimento quando começou a chover em cima do paciente, uma criança. Fomos arrastando os móveis da sala para os pontos menos atingidos para conseguir terminar a consulta. Assim que encerramos, cancelamos os outros pacientes. É água da chuva, mas não sabemos por onde passou até chegar ali. Pode colocar uma pessoa em risco. Engenheiros e representantes do poder público já visitaram o local. Dizem que o problema é no telhado, mas ninguém resolve. Os interruptores de luz pegam chuva, computadores, armários. Acabam estragando. Não dá para entrar na sala de tanta água que tem. A reação dos pacientes, em geral, é ficarem apavorados com o que acontece. Como não há outra sala, temos de suspender o atendimento das pessoas. Explico aos pacientes que não temos as condições mínimas. Muitos não entendem, reclamam. Mas trabalho em saúde pública há mais de 20 anos. Acho que se ficarmos dando jeitinho, as coisas nunca vão melhorar. Quando não se consegue fazer o próprio trabalho por falta de estrutura, é muito frustrante.” Rosemeri Cohen, pediatra
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