Defesa

Na fila de espera: a realidade enfrentada pela população que busca atendimento

30/03/2017

Quem depende do SUS para realizar uma consulta ou exame sabe como a espera pode ser longa. Com equipes formadas por um número insuficiente de profissionais, que precisam trabalhar sobrecarregados para atender a demanda, a qualidade e a rapidez do atendimento ficam comprometidas.

Só em Porto Alegre, a lista para realização de exames reúne 14 mil pacientes. Já a fila para consulta com especialista conta com 88 mil nomes. De acordo com o secretário municipal de saúde, Erno Harzheim, densitometria e ecografia são os exames que costumam exigir a espera mais longa.

Para ele, a justificativa está ligada à tabela do SUS. “O exame da ecografia é realizado por um técnico e interpretado por um médico. A defasagem da inflação dos serviços ao longo do período e a não atualização da tabela do SUS acabou fazendo com que a ecografia fosse o exame mais mal pago pelo gestor público”, explica.

O secretário de saúde defende ainda que uma das prioridades seja a transparência dentro do sistema municipal, tanto para aquilo que funciona quanto para os procedimentos que exigem mudanças. “A meta é ter a solicitação das consultas num prazo de 30 a 60 dias, dependendo da condição clínica do paciente. Algumas especialidades vão demorar mais. Temos quase 30 mil pessoas esperando consulta com um ortopedista, por exemplo”, conclui o secretário.

O desafio, entende a vice-presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (SIMERS), Maria Rita de Assis Brasil, é complexo e exige trabalhar medidas que ofereçam soluções que não sejam apenas paliativas. “Alguns trabalham com a opção de fazer mutirões, outros anunciam mudanças mais estruturais. Aqui em Porto Alegre, a cada nova gestão parece que tudo vai mudar, mas a verdade é que a situação se repete. Embora existam hospitais contratualizados para atender especialidades, como é o caso do Clínicas, do Conceição, do São Lucas e da Santa Casa, entre outros, não dá conta da demanda. O que  temos, na realidade, é um cobertor curto. A necessidade é que, efetivamente, tivéssemos mais profissionais para atender”, salienta.

 

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Espera é rotina também em Santa Maria


Em Santa Maria, os números também mostram as dificuldades encontradas pela população. Em 2016, pelo menos 1.540 pessoas que estavam na fila de espera por um exame ou consulta na rede pública do município morreram. Para Maria Rita, o cenário preocupa e expõe uma realidade que já virou rotina: a demora de meses, quando não anos, para que se consiga atendimento em saúde. “Embora nem sempre a causa do óbito seja a mesma daquela que motivou o pedido da consulta, certamente influenciou. É um dado que merece atenção”, destaca.

Segundo o relatório do sistema Consulfarma, mais de 33 mil pessoas aguardam por exames e 35 mil aguardam uma consulta. As principais áreas com demanda reprimida são traumato-ortopedia, oftalmologia, otorrino, cirurgia geral, cardiologia, neurologia, dermatologia e psiquiatria. No entanto, o prefeito de Santa Maria Jorge Pozzobom, também secretário de saúde do município, ressalta que alguns pacientes podem aparecer mais de uma vez na mesma lista. Para identificar as repetições e diminuir o tempo de espera, ele aposta no Mutirão Fila Zero.

Para o prefeito, as longas filas estão diretamente relacionadas com a desorganização do sistema e com a falta de uma política efetiva de atenção primária. Hoje, porém, o município possui um número insuficiente de médicos em seu quadro de servidores.

“Há um processo seletivo em andamento, com vagas para médicos de ESF, infectologista, clínico geral, ginecologista, obstetra, pediatra, psiquiatra, endocrinologista e cardiologista. O problema é que, tomando como base os últimos concursos realizados, dificilmente haverá o preenchimento das vagas oferecidas. O regime de cargos e salários em vigor hoje no município não é atrativo aos profissionais da área médica, que são muito valorizados (e com razão) no mercado”, explica Pozzobom.

A saída, como defende historicamente o SIMERS, é a criação de planos estadual e municipais de carreira para a categoria, por meio de concursos públicos, como já acontece com juízes, militares e ministério público. A consequência seria a melhor distribuição dos profissionais no interior do Rio Grande do Sul, e a garantia de serviços prestados de melhor qualidade e mais definitivos para a população.
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