Defesa

Conheça histórias que inspiraram o episódio “Força pra encarar tudo”

17/10/2016

Foto: OSTILL / iStock
Foto: OSTILL / iStock


Ser médico também significa fazer escolhas, e nem sempre fáceis. Diante do poder de decidir sobre a vida dos pacientes, profissionais precisam enfrentar questões que muitas vezes fogem a sua competência, como a precariedade do serviço público, ou podem determinar a vida e a morte de alguém. Na websérie Nascidos para Medicina, obra ficcional que retrata os desafios dos médicos na luta pela prestação da saúde de qualidade no Brasil, uma menina chega à emergência gravemente ferida, e, após diversas tentativas de reanimação, é constatada a morte cerebral. Com a ajuda de Julia, Marco deve lidar com sua primeira perda e com a família da menina. Assista aqui.

Conheça histórias de decisões difíceis enfrentadas por quem exerce a medicina:



“Trabalho muito em serviço público, e nesse contexto as decisões não são tomadas sempre por nós, mas pela conjuntura. Lembro de situações, anos atrás, antes de existir um protocolo específico para quem tem um infarto, tinham dois pacientes nessa situação no Pronto Atendimento Cruzeiro do Sul ( Pacs), mas só conseguimos uma vaga para o cateterismo, que seria feito no Hospital da PUCRS. Precisávamos escolher um dos dois para realizar o procedimento. Os dois estavam aguardando pela internação, mas não tinham previsão, e o infarto é uma corrida contra o tempo. Um dos pacientes tinha cerca de 40 anos, o outro por volta dos 60. Como o infarto é mais perigoso em pacientes jovens, usamos o critério da idade e encaminhamos o que tinha maior risco de perda. No fim o outro conseguiu vaga para o dia seguinte, e os dois sobreviveram. Ter de tomar esse tipo de decisão é sempre muito ruim. Mas, na saúde pública, infelizmente, em maior ou menor grau, isso acontece todos os dias. Sabemos o que fazer, mas muitas vezes não está disponível. O médico fica apreensivo, porque sempre tem riscos.”

Clarissa Bassin, diretora do Simers

“Às vezes o médico precisa tomar decisões difíceis, mas que são necessárias. Cerca de seis anos atrás, tive um caso de uma paciente grávida trigêmeos em que um deles corria risco de morte. Estava em sofrimento fetal. A única chance de salvá-lo era realizar a cesárea, mas poderia condenar os outros dois a não sobreviverem. Senti-me impotente, e com uma responsabilidade muito grande. Nesses momentos, o médico faz um papel de ser supremo, porque tem um poder de vida e morte nas mãos. Disse para a mãe: olha, é uma gestação prematura, são 28 semanas, e por um deles podemos perder os outros dois. À época da gestação eu costumava chamá-los de os três mosqueteiros, e a mãe quis seguir o lema, um por todos, todos por um. Não quis selecionar quem iria perder. Na hora deu medo de que não fosse a melhor decisão, mas decidi aceitar a escolha da mãe. Fizemos a cesárea dos três. Foi um momento tenso tirar três bebês de 700, 800 gramas. O primeiro foi o que estava em sofrimento fetal, depois vieram os outros dois. Levou cerca de uma hora. Quando vi que os três estavam bem, tive a sensação de que tinha feito a coisa certa. Vi que tinha feito o melhor para a mãe a para eles, e me deu uma tranquilidade. Eles acabaram ficando no hospital muito menos tempo do que prevíamos. Hoje eles têm seis anos e vivem muito bem. Foi uma situação com final feliz.”

Andiara Luvielmo, ginecologista e obstetra.

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