A Vida

À memória e ao legado de cinco jovens médicos

01/10/2019


A cada vez que uma doação de órgãos em outra cidade surgia, um grupo de cinco médicos era formado e embarcava na missão única de dar uma segunda chance à vida de desconhecidos. Na noite chuvosa de 1º de outubro de 1997, o objetivo foi interrompido pela queda da aeronave Xingu 121, do governo do Rio Grande do Sul.

Saindo de Porto Alegre com destino a Chapecó, em Santa Catarina, o grupo era a responsável naquele dia por fazer a captação de órgãos em um paciente internado com morte cerebral no Hospital Regional da cidade catarinense. No acidente, cinco jovens médicos perderam suas vidas precocemente.

A tragédia, que deixou familiares, amigos e a medicina gaúcha em luto, completa, neste 1º de outubro, 22 anos. Do legado desses profissionais, a transformação das diretrizes e o fortalecimento de campanhas de doação e transplante de órgãos no Estado. Hoje, o Simers homenageia a memória e a trajetória de cada um deles.

Uma prova de amor à vida

Marcos Stédile, 28 anos, André Augusto Barrionuevo, 29 anos, Jean Kohmann, 31 anos, Jackson Ávila, 27 anos, e Cláudio Lança, 29 anos. A poucos quilômetros da pista do Aeroporto Serafim Bertazo, em Chapecó, o avião em que estavam, juntamente com os pilotos José Eduardo Dutra Reis e Paulo César Reimbrecht, colidiu contra árvores e caiu.

O quinteto, parte da equipe de transplantes do Hospital Santa Casa e do Instituto de Cardiologia, de Porto Alegre, parece mesmo ter sido vítima de uma triste ironia do destino. Na busca por salvar vidas, tiveram as suas abreviadas.

Passadas mais de duas décadas, as vítimas ainda são lembradas e homenageadas pela categoria médica. "Esse é um evento que marcou tragicamente a Medicina de transplantes do nosso Estado. Acredito que esses médicos, os pilotos e todas as famílias envolvidas devem ser reverenciados por que esse é um caso típico de médicos que morreram ao tentar salvar a vida de outras pessoas", comentou Marcelo Matias, presidente do Simers, durante entrevista ao programa Repórter Bandeirantes.

Das lembranças

Diretor médico do Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre, José Camargo, ainda lembra da dificuldade em encontrar forças para retomar a rotina - e todas as lembranças que ele trazia consigo. “Eu sei o quanto custou tudo isso. Foi uma experiência dolorida e sustentada, porque durante muito tempo coisas banais, como encontrar a letra deles nos prontuários, era uma dor renovada”, explica.

O Jean, relembra Camargo, nunca havia participado de uma captação de órgãos fora de Porto Alegre. “Já o Jackson, ainda residente do primeiro ano e mais novo entre eles, teria naquele dia sua primeira experiência. Eram talentosos, ainda tinham muito a contribuir”, completa ele citando os dois médicos ligados ao transplante de pulmão, sua área de atuação.

Único dos profissionais ligado do Instituto de Cardiologia, Barrionuevo trazia desde cedo o desejo de se tornar médico, relembra o pai Augusto Barrionuevo. “Sempre foi muito estudioso e inteligente, dedicado a tudo que fazia. Era um grande vocacionado para atuar na medicina, vivia para isso”. Para a família, apesar do vazio deixado pela ausência do filho e irmão mais velho, ficou o sentimento de alguém que sempre amou a vida ao extremo. “Parece até que adivinhava que ela seria curta”, completa o pai emocionado.

Mudanças na legislação

Em 1999, dois anos após o acidente, foi criada a Lei nº 11.308, que instituiu a Semana de Doação de Órgãos no Rio Grande do Sul. A legislação surgiu como incentivo à doação de órgãos e homenagem às vítimas. No documento que a oficializa, de autoria do então deputado Carlos Vieira da Cunha, consta também a dedicatória: “Médicos e pilotos idealistas e humanitários, exemplos de dedicação profissional, falecidos em acidente aéreo ocorrido em 1º de outubro de 1997, em Chapecó (SC), quando viajavam em condições climáticas adversas em busca de órgãos para salvar vidas”.


SEGUROS