Falta de profissionais, sucateamento de ambulâncias e falta de leitos de referência contribuem para o desmonte do SAMU RS

Central de regulação do SAMU RS – Foto: Juliane Soska/Divulgação SIMERS

 

A nossa função é, com poucos recursos, fazer o melhor possível. Só que chegamos a um ponto absurdo. Não há como gerir esta situação caótica. Como médico, é realmente triste falar diretamente com uma pessoa, ouvir o desespero do outro lado da linha, a tentativa de salvar um familiar, e não ter como resolver. É um fracasso, parece que não estamos cumprindo nosso papel por todo um sistema ineficiente que se estabeleceu”.

Este é o relato de um médico regulador do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) do Rio Grande do Sul, que falou ao Sindicato Médico do RS (SIMERS) e optou por não ser identificado. A essência do trabalho dos médicos reguladores é prestar o primeiro atendimento por telefone e encaminhar, conforme a necessidade, uma ambulância munida de médico e equipe para dar continuidade ao salvamento da vítima. A realidade é que com um sistema precário, muitas vezes sem veículos ou profissionais suficientes e sem leitos nas instituições de referência, o médico regulador se vê em um beco sem saída. A solução é orientar as pessoas a prestar socorro e procurar ajuda na unidade de saúde mais próxima, mas isto não torna a tarefa mais fácil. Pelo contrário, coloca o profissional numa situação de frustração absoluta por ser incapaz de fornecer à vítima o serviço na sua totalidade.

Para ele, os piores atendimentos são estes, quando não há recursos para enviar para a vítima, casos que têm ocorrido com frequência. “Nós decidimos, por telefone, pela vida de outra pessoa o tempo inteiro. Tomamos condutas que definem a vida de alguém e fazemos isso levando em conta os recursos escassos. A maioria dos municípios têm apenas uma ambulância. Se eu mandar uma ambulância para um caso não tão grave neste local, estou arriscando perder alguém que logo, daqui cinco minutos, vai realmente precisar do serviço”, pondera.

O médico se emociona ao lembrar dos inúmeros casos que ele e os colegas têm atendido nos últimos tempos e que denotam a falta de estrutura na saúde pública de todo o estado. De um lado, as cidades do interior com poucos hospitais como referência. De outro, a superlotação nos leitos da capital que desafiam os reguladores: para onde mandar mais um caso grave atendido pelo SAMU? “A saúde na Grande Porto Alegre e no interior tem piorado muito. Vamos exemplificar: imagine uma cidade pequena sem condições de atender um caso grave, como um infarto, por exemplo. Essa localidade tem como referência uma instituição de maior complexidade, mas a verdade é que estes locais estão lotados. Se chega um infarto em um município pequeno, o médico que o recebe não consegue enviar para a referência e quando ele não consegue encaminhar para lugar algum, ele liga para nós do SAMU. Ou seja, ele usa um recurso que existe, o chamado vaga zero, nos liga e explica a situação. Isso era algo que até dois anos atrás acontecia esporadicamente. Num plantão de 12 horas, tinha um pedido de vaga zero ou até mesmo nenhum. Hoje, um médico regulador, durante um plantão de 12 horas, recebe quatro ou mais pedidos de vaga zero, então temos que pegar este paciente e encaminhar para um hospital que já não tem vagas. Vamos ligar para um colega e dizer que estamos enviando um paciente em situação delicada, mesmo que ele não tenha espaço e equipamentos para receber esta pessoa”, conta.

 

Sucateamento e falta de ambulâncias

Ambulância SAMU – Foto: Amália Ceola/Divulgação SIMERS

O especialista cita detalhes de um fator importante: o sucateamento de ambulâncias que ficam estragadas e fora de ação por meses em diversos municípios. Foi o caso recente de Santa Maria. Dos quatro veículos existentes na cidade, dois ou três estiveram estragados ao mesmo tempo em várias ocasiões, limitando o atendimento a apenas uma equipe. Pinhal, no litoral norte, ficou sem o serviço por quase dois meses em função do conserto das duas ambulâncias. Ainda assim, a população precisa e segue fazendo contato com o serviço. “Essas áreas ficaram descobertas, mas as pessoas seguiram ligando para nós. Orientamos a procurar o serviço mais próximo ou auxiliamos em alguma manobra em casos mais graves, mas não temos o que enviar. Como dizer isso ao familiar que está na linha?”, questiona.

Ele recorda também que já foram registrados casos em que foi preciso enviar uma ambulância para socorrer outra equipe que ficou empenhada em um atendimento por que o veículo estragou durante o percurso, devido as condições precárias dos carros.

 

SAMU se torna maior referência para garantir atendimento

O cenário caótico da saúde pública é tão abrangente que tem gerado uma cultura de buscar no SAMU o atendimento que deveria ser encontrado em outros serviços. Na dificuldade de garantir acesso a consultas e/ou procedimentos, a população busca socorro no SAMU. “Os pacientes estão com tanta dificuldade de chegar em um pronto-atendimento, a espera é de muitas horas, que as pessoas já se deram conta que, ao ligar para o SAMU e dizer que estão com muita dor no peito, por exemplo, o serviço vai até lá e essa pessoa vai furar a fila. É o que a gente sente trabalhando todos os dias: que os pacientes, na falta de um atendimento adequado, utilizam mais o recurso do SAMU para conseguir o atendimento que eles precisam”, revela.

 

30 médicos reguladores se demitiram em um ano por total falta de condições de trabalho

A realidade desoladora que comove até os profissionais mais calejados é o resultado de fatores associados à ineficiência da gestão da saúde pública. Para o médico que conversou com o SIMERS, o desmonte do SAMU se refere especialmente à soma de redução de leitos SUS em hospitais de referência; sucateamento de ambulâncias para prestar o serviço e também a falta de médicos. 30 médicos reguladores do SAMU se exoneraram do serviço pelas péssimas condições de trabalho no último ano e estas vagas não foram repostas. Dos 70 profissionais necessários para o trabalho, pouco mais da metade segue ativa, o que dificulta ainda mais a função. “O objetivo do SAMU é ótimo e era para funcionar muito bem, mas não temos vagas suficientes em hospitais, não temos médicos ou equipes suficientes, nem ambulâncias. E é por isso que não está funcionando adequadamente”, explica, lembrando que o último concurso para médicos reguladores no estado foi há dois anos.

Para solucionar a falta de profissionais, o SIMERS negocia contratação de mais médicos reguladores. Esta semana, as negociações avançaram com a Secretaria Estadual de Saúde (SES/RS). O diretor-geral da SES, Francisco Bernd, afirmou que vai pedir ao secretário João Gabbardo que interceda junto ao governador José Ivo Sartori para que as contratações sejam feitas. “Com a negociação que estamos buscando junto ao governo do estado esperamos resolver parte destes problemas com, pelo menos, o número adequado de médicos para o trabalho, para nós e nossos pacientes do outro lado da linha”, espera o médico.